Songs To Nowhere#109#Trendkill Radio#6.09.2021

Entrevista aos Elder, de Massachussetts até Moledo foi um longo caminho

A meio do SonicBlast Moledo tivemos a fantástica oportunidade de falar com o Nicholas DiSalvo e o Jack Donovan, respectivamente guitarrista/vocalista e baixista dos norte-americanos Elder que foram cabeças de cartaz da primeira noite do festival.



Há já algum tempo e com alguma expectativa se aguardava a estreia do trio agora quinteto, americano em terra lusas, tendo inclusivamente existido uma data em 2015 que acabou por ser desmarcada por motivos alheios à banda.
No activo desde 2006 e com 4 discos editados, o último Reflections of a Floating World em junho deste ano, foi com o concerto da noite anterior que encerraram a tour, num misto de emoção e realização. Na verdade todo o concerto se assemelhou a uma quebra no ciclo viciante que são os Elder.

Encontrámo-los no espaço que a organização do SonicBlast disponibilizou para press center, descontraídos e a observar com alguma curiosidade os livros que aí se encontravam e tivemos um momento de conversa informal e divertida, sobretudo com a intenção de conhecer melhor as pessoas por detrás da muralha sonora que são os Elder.
 
 Isabel Maria – Como tem estado? A espera por um concerto dos Elder em Portugal foi longa! Como sentiram o concerto de ontem?

Elder – Fantástico. Nós sabemos disso, e também sentimos um pouco essa antecipação. já viajámos por quase toda a Europa e Portugal era um dos poucos países onde ainda não tínhamos tocado. Sentimos essa antecipação por parte do público e divertimo-nos imenso.

Isabel Maria – Os Elder andam a tocar e a editar discos desde 2008. Na altura em que começaram alguma vez vos passou pela cabeça que as coisas iriam atingir esta dimensão?

Elder – Nunca!! Acho que nem conseguíamos. Éramos miúdos a tocar na cave das casas dos nossos pais, éramos uns miúdos de secundário normalíssimos. Estávamos naquele ponto das nossas vidas em que tínhamos a vida à nossa frente e toda a gente esperava que fossemos estudar e arranjássemos um emprego….e nessa altura até podes sonhar em tocar e tudo o mais, mas na realidade achávamos que isto era impossível…. É como quando gostas de jogar à bola mas não esperas tornar-te um jogador profissional.



Isabel Maria – Neste momento a música é a vossa principal ocupação?

Elder – Sim….sim é! Quer dizer nós não ficamos por aí sem fazer nada em casa à espera quando não estamos em tour. Fazemos bastantes tournées e aí isto torna-se a nossa ocupação principal mas não porque não queremos trabalhar…na verdade acho que todos temos outras ocupações.

Isabel Maria – Mas a música também é um trabalho!?

Elder – Sim claro! Só que é um trabalho divertido! Realmente divertido! Nós não andamos em tour doze meses por ano, normalmente andamos em tour cerca de quatro meses…mas ainda assim temos de fazer qualquer coisa durante os restantes oito meses.

Isabel Maria – Mas actualmente é a vossa ocupação principal! Que outras ocupações ou trabalhos preenchem o vosso tempo quando não estão em tour?

Elder – Coisas relacionadas com a banda.. Eu trabalho para a nossa editora ( Nicholas ), o Jack faz alguns trabalhos de áudio e é canalizador. O nosso baterista tens uns trabalhos estranhos e é dono de uma loja de bebidas.

Isabel Maria – Neste álbum tem dois músicos convidados. Esse crescimento influenciou este trabalho?

Elder – Influenciou. Nós já tínhamos uma certa ideia de trazer outros músicos que pudessem adicionar diferentes texturas ou instrumentos ao álbum, como o Mike, que tocou Pedal Steel Guittar em algumas músicas do disco e ao acrescentarmos alguns instrumentos que nunca se tinham ouvido nas nossas músicas as coisas mudaram um pouco. Um dia gravámos uma jam de cinco horas e pensámos que iríamos aproveitar muito desse material no disco mas no final acabámos por usar muito poucas dessas coisas. Acabámos por ficar com imensa música e ideias…Talvez para usar mais tarde.
Tem sido muito bom termos mais dois músicos connosco. Foi óptimo termos dado este passo em frente e passar de um trio a um quinteto.



Isabel Maria – Como é que se conheceram?

Elder – O Michael Risberg que é quem está a tocar a guitarra e teclas, andou comigo ( Nicholas ) na universidade e tocámos junto numa banda chamada Gold & Silver. Há uns anos atrás gravámos um disco para uma editora francesa…o Michael Samos é gerente da loja de guitarras da nossa cidade natal e eu vou lá todas as semanas. É um tipo super simpático e um dia convidámo-lo para uma jam.

Isabel Maria– Um processo natural portanto, certo?

Elder – Sim. E com pessoas que conhecemos e com quem temos laços de amizade e coisas em comum.

Isabel Maria - O nome do vosso novo álbum, soa vagamente a uma declaração de intenções ou um conselho, ou quem sabe advertência. É essa a intenção?

Elder – Sim, penso que tem vagamente o seu quê de advertência, mas cada um pode interpretá-lo à sua maneira.
Eu gosto de pensar que as músicas refletem coisas que vivenciei na minha breve vida. Mas especialmente que refletem coisas e eventos desde que a banda começou. E cada música é uma música e fala por si.

Isabel Maria – Quem fez a capa do vosso disco?

Elder – O nosso bom amigo Adrian Dexter faz a maioria das nossas ilustrações e t-shirts. Existem outros artistas com quem colaboramos mas é o Adrian que faz quase tudo, principalmente as capas. Crescemos com ele e agora ele vive na Dinamarca onde trabalha em animação, mas todos os anos ele faz uma pausa no trabalho dele e faz parte da tour connosco a fazer projeções durante os nossos concertos. Infelizmente ele não pode vir connosco desta vez. Talvez para a próxima.

Isabel Maria – Quais são as bandas que consideram ser os vossos clássicos. Aquelas que fazem parte da vossas escolhas desde sempre ou às quais retornam sempre?

Elder – Vengaboys!! !!! Definitivamente! (Risos) E ora bem clássicos…eu ando a ouvir os mesmo discos desde os 15 anos mas talvez Motorpsyco, Thin Lizzy os Yes….eu oiço tanta musica que torna-se muito difícil escolher…



Isabel Maria – E coisas mais recentes ou que vos tenham despertado a atenção recentemente?

Elder – Ah…Não sei! Essa é aquela pergunta mesmo difícil e embaraçosa…
Não ouvimos assim muita coisa recente mas os Weedpecker, uma banda polaca fantástica, ou os Papir, outra banda fantástica, o SonicBlast deveria trazê-los para a próxima edição. Outra banda fantástica são os NeedlePointe, uma cena mais prog rock e um tanto ou quanto obscura.

Isabel Maria – Vão ficar para ver alguns concertos?

Elder – Dois terços de nós vão ficar! (Risos)

Isabel Maria – Algum concerto em especial agora durante a tarde no palco junto à piscina?

Elder – Há um palco junto a uma piscina? Vamos ter de ir ver isso melhor!

Isabel Maria– Algumas palavras para o público do SonicBlast?

Elder – Sejam excelentes uns para os outros e divirtam-se!!!!!!



SonicBlast Moledo’17 Dia 11, de Moledo ao Espaço em 12 concertos

A espera terminou. É sexta-feira. A temperatura subiu, o vento parou e cada vez mais gente sobe as ruas que vão dar à piscina de Moledo onde os concertos começam por volta das 13.30. O SonicBlast está prestes a começar. Nas próximas 36 horas iremos ver 24 bandas com uma pausa para descanso. A bilheteira encontra-se repleta de gente a trocar bilhetes por pulseiras, numa azáfama estranhamente coordenada. O Sonicblast voltou a esgotar. O que não era difícil de adivinhar tendo em conta o cartaz que apresentaram para 2017.
Novamente a apostar em doses equilibradas em bandas recentes e bandas consagradas e com um leque de estreias que nos obriga a parar para pensar, um cartaz com espaço para várias sonoridades dentro do espectro a que se dirige… Perguntamo-nos se teremos a habilidade de sentir tanto de tantas formas em tão curto espaço de tempo. As zonas envolventes encontram-se agora repletas de gente, mas não daquela forma que não nos permite fazer nada a não ser seguir atrás uns dos outros. Ou seja, apesar de verificarmos que o espaço tem gente continuamos a conseguir movimentar-nos entre o palco a zona de refeição ou a bilheteira com uma fluidez natural e mais que isso extremamente agradável.

A abertura do palco secundário, junto à piscina, coube ao duo oriundo da Cidade do México, mas agora sediado em Berlin, Bar de Monjas, que segundo o relato dos presentes tiveram uma prestação cheia de garra e à altura do que deles se esperava a destilar todo o seu fuzz no pico do calor desse dia, a fazerem-se ouvir por Moledo como se de um chamamento se tratasse.
A primeira banda que encontrámos no palco da piscina foram os Holy Mushroom, banda natural de Oviedo, que à medida que íamos subindo a colina em direcção ao recinto libertava uma vibração tão apropriada quanto perturbadora e que nos acolheu na perfeição como um convite a uma viagem morna pelos raios solares que nos aqueciam àquela hora do dia junto à piscina. Um concerto que apenas pecou por pequeno.
Quando os portugueses It Was the Elf se apresentaram poucos minutos depois, já encontraram o recinto mais preenchido e a banda teve oportunidade de injectar uma nova dose de adrenalina na tarde com a sua sonoridade bastante mais musculada e intensa, mostrando-se com uma garra evidente e inequívoca os It Was The Elf trouxeram as músicas do álbum editado em 2016, tendo ainda desvendado uma faixa nova para o público de Moledo.
Os It Was Elf deixaram o palco com um público bastante agradado com a prestação e completamente preparados para os refrescantes Stone Dead que vieram até à foz do Minho apresentar o seu novo disco, Good Boys, editado este ano, num registo mais leve e gingão do que é habitual nestas paragens. O público agradeceu a explosão enérgica e juvenil que estes trouxeram. Levantaram-se das toalhas e bastante gente abanava a anca a pedir mais deste som cheio de um groove muito próprio.

Neste registo ondulatório de altos e baixos ritmos conseguia agora entrever-se o plano que nos havia sido delineado com este alinhamento. O cruzamento de bandas tanto num palco como no outro iria ao longo dos dois revelar-se-ia muito bem estruturado de modo a compor o ambiente na forma mais heterogénea possível, trazendo picos de adrenalina mais efusivos como os Bar de Monjas, alternando com os cósmicos Holy Mushroom para novamente nos lançar no estilo mais ofensivo dos It Was the Elf e logo nos levar a um registo mais leve e repleto de rock n’roll dos Stone Dead.

O final da primeira tarde na piscina trouxe até nós os Black Bombaim que nessa tarde se apresentaram com mais uma peça na sua engrenagem, o saxofone. No seu estilo irrepreensível e característico coube-lhes o encerramento da tarde de sol e piscina. Depois de toda a alegria espalhada de forma contagiosa pelos Stone Dead que nos haviam libertado das sonoridades mais intrincadas dos It Was the Elf os Black Bombaim simplesmente entraram nos nossos pensamentos e construíram através da sua música momentos completamente memoráveis em termos sonoros. O saxofone acentuou uma série de nuances na música com que nos presentearam, permitindo uma viagem serena e intensa em direcção àqueles que pareciam ser já os últimos raios de sol do dia.

Findos os concertos na piscina o público dispersou-se pelo espaços do festival e muitos encaminharam-se de imediato para o palco principal. Existia alguma curiosidade com a actuação dos israelitas The Great Machine.
Tal como havia acontecido um par de horas atrás com os Stone Dead, que fogem actualmente um pouco à sonoridade predominante no Sonicblast, também aqui o público correspondeu e clamou por mais. Os The Great Machine trouxeram um concerto cheio de garra que mantiveram habilmente do princípio ao fim e souberam transformar a sua inesperada actuação em algo memorável. Dominaram o palco e o público com uma atitude a roçar um certo punk e noise, musculado e sem filtro. Exuberantes no mínimo. A repetir sem dúvida.

Seguiram-se os The Well, obscuro trio oriundo de Austin, também eles a fazerem a sua estreia em Portugal, e onde Lisa comanda o ritmo através do seu baixo carregando toda a actuação de uma sensualidade completamente inesperada. É ela que domina grande parte das atenções do público, com a sua atitude dir-se-ia quase displicente, através da forma autoritária com que comanda a secção rítmica da banda e o próprio público. Os The Well souberam aproveitar bem a hora que actuaram, e o concerto destes acompanhou a descida do sol no horizonte de uma forma quase sincronizada. À medida que o sol desaparecia evidenciavam-se cada vez mais as tonalidades mais pesadas e sombrias dos The Well que foram largamente aplaudidos pela surpresa causada.

Os senhores que seguiram, os Yuri Gagarin, também estreantes em solo português, oriundos da Suécia, entraram em palco naquele momento em que a claridade do sol já se vislumbra apenas reflectida na abóbada celeste. Atrás dos músicos o nome, imponente como a sonoridade dos mesmos parecia crescer à medida que passavam pelas suas músicas e nos transportavam numa viagem que nos levaria no cair da noite a sentir as primeiras constelações obscurecidas pela sonoridade espacial intrincada presente em músicas como Sea of Dust ou New Order. Um concerto que começou um pouco desligado do público mas que terminou no seu auge deixando uma certa sensação incompleta e algo confusa sobre o mesmo, mas um público bastante satisfeito com o que havia vivenciado.

Cerca das 21.30 os Kikagaku Moyo entraram em palco. Talvez porque o concerto anterior havia sido denso na sua totalidade a música dos Kikagaku Moyo parecia-nos suave demais…e foi assim que começaram com uma suavidade, macia e etérea que aos poucos se entranhou em nós e nos embrenhou no seu psicadelismo sexy e nostálgico, mas completamente positivo. O que nos trazem não é novo, mas a sua fórmula contém uma dose de abstração maior e mais extensa que a multidão que os recebe. Á medida que o concerto progride e a atmosfera que criaram envolve cada vez mais o público sente-se uma espécie de euforia sincera e desprendida a tomar conta de todo o recinto. Respirava-se em harmonia com o universo! Sem dúvida um dos momentos de maior sintonia entre todos os presentes, e um concerto ao qual poucos terão ficado indiferentes e que reflete toda a atmosfera com que identificamos o SonicBlast.

A tarefa dos suecos Monolord não seria fácil, apesar de conhecermos as capacidades da banda e de não existirem dúvidas sobre a mesma, suceder aos Kikagaku Moyo que nos haviam levado numa viagem serena e feliz pelo psicadelismo mais setentista que por lá passou pareceu naquele momento complicado.
Na verdade não foi. Os Monolord protagonizaram mais uma estreia irrepreensível, aguçando a nossa curiosidade pelo álbum cujo lançamento está bastante próximo. Conseguiram sem qualquer dificuldade comunicar com o publico e introduzir música a música a sua sonoridade mais pesada e complexa até ao final estrondoso com Empress Rising que granjeou francos aplausos pela eximia e intrincada execução, semente de uma agressividade latente e obscura e que aqueceu novamente a noite à qual trouxeram um fôlego nada inesperado deixando o público grato pela entrega da banda e muita gente com vontade de os rever.
 A noite parecia recomeçar novamente. Os Elder eram uma das estreias mais aguardadas. Com mais um guitarrista em palco criaram todo um plano suspenso sobre as suas complexas criações. Dedicaram-se aos álbuns mais recentes o que de certa forma arrefeceu a ligação que se esperava bastante estreita. A verdade é que em termos de execução os Elder são irrepreensíveis. Apesar de termos sentido um certo cansaço em alguns momentos, fruto talvez de este ser o último concerto da actual tourné, e também não são fáceis de digerir, mas perto da magnitude do som que criam e reproduzem em palco todos estes apontamentos não passam disso mesmo. A falange mais dedicada do público que os compreendeu do princípio ao fim, e que era bastante grande, aplaudiu efusivamente cada música porque de facto os Elder sem qualquer dificuldade cativam mesmo através das suas mais complexas composições. Resta-nos esperar que regressem em breve pois soube a pouco.

12 horas depois do inicio na piscina, tínhamos agora perante nós os The Cosmic Dead que substituíram os Kadavar no cartaz deste ano. No meio de azares e peripécias e com o público já a estranhar a demora na entrada em palco, informaram que haviam chegado há poucos minutos e iriam tocar com material cedido por outras bandas pois os seus instrumentos se tinham extraviado, agradecendo a todos os que tornaram o concerto ainda assim possível.
De repente não se sabe bem o que esperar, ou o que esperamos de facto. Não é tarefa fácil tocar com instrumentos de outros músicos, mesmo tratando-se de uma banda capaz de improvisos intermináveis. Não foi aos primeiros acordes que os reconhecemos na sua totalidade, mas a habilidade e capacidade destes músicos conseguiu transpor um obstáculo cruel com uma graciosidade fantástica, oferecendo-nos um concerto decerto irrepetível. Uma surpresa agridoce decerto mas da qual souberam tirar o melhor partido sem prejuízo algum para o público. Criaram ao longo do seu set os sonhos que muitos de nós levariam para a tenda transportando toda a turba que ainda ali se encontrava para um plano elevado com uma vista privilegiada sobre o Atlântico, junto ao qual muitos foram terminar a sua noite, até que um novo dia cheio de música comece.
Podem ver a reportagem completa no Musica em Dx com fotografia do Daniel Jesus!





SonicBlast Moledo 2017: Entre o oceano, o espaço e o deserto.

É junto à Foz do Rio Minho, mais concretamente em Moledo que termina a espera e o caminho de muitos fãs do stoner, do doom e do psicadélico que vem de todo o país, e cada vez mais também de outros países, em direcção ao SonicBlast de 2017 que vai decorrer no próximo fim de semana.
Presentemente à beira da sétima edição o SonicBlast Moledo que já trouxe até nós bandas como os Brain Pyramid ou os Pentagram vem confirmar a sua posição no mapa dos festivais da especialidade.
A excitação este ano ferveu ainda mais com o anúncio dos veteranos Orange Goblin e Acid King, assim como os Elder ou os The Machine e à medida que o cartaz foi sendo revelado, assim também o público se manifestava, ora a pedir mais bandas ora a pedir este mundo e o outro. Terá sido no entanto a noticia da vinda dos Colour Haze que se vão estrear em solo nacional que mais agitou o público.

Apesar de alguns contratempos como o cancelamento dos Kadavar, a organização soube manter o rumo e traz os Cosmic Dead que lançaram no inicio deste ano um novo álbum. Também com novo álbum para provar ao vivo e a cores temos os Sasquatch e os Elder.
De assinalar também a passagem por terras do Minho dos Kykagaku Moyo e dos Bar de Monjas. Assim poderemos assistir em cerca de 72horas , a cerca de 24 concertos, do doom ao psicadélico e ao stoner.

Na quinta feira em jeito de aquecimento e com entrada livre, poderemos assistir a partir das 17 h aos concertos de Jesus The Snake e  Chaos Ritual no Paredão 476. Às 23 h no Ruivo’s Bar teremos Desert Mammoth e Mr. Mojo.
Em ambos os dias os concertos começam às 13.30 no palco piscina. Este ano caberá aos Bar de Monjas, duo mexicano garage e stoner  abrir o festival. . Durante a tarde sexta poderemos assistir ao concerto dos Holy Mushroom, naturais de Oviedo, que nos levarão na primeira viagem intergaláctica do festival através do seu primeiro álbum, editado no final do ano passado. Teremos ainda os portugueses It Was The Elf, senhores de um stoner mais musculado e directo e os Stone Dead que trazem na bagagem um novo álbum fresquíssimo e cheio de excelentes músicas. Para finalizar a tarde em grande os Black Bombaim voltam ao SonicBlast para mais uma viagem nas suas músicas hipnóticas.

Na primeira noite o palco principal terá várias estreias em terras lusas; The Great Machine, o trio de Tel Aviv foi uma adição de última hora que irá agitar o público com o seu heavy psy a reviver a melhor a tradição dos anos 70, os The Well, o trio de Austin que se diz influenciado por artistas tão diversos como os Joy Division ou os Blue Cheer que nos trará um doom psicadélico e ainda os suecos Yuri Gagarin com o seu rock espacial recheado de riffs pesados.A noite continuará com o regresso dos japoneses Kykagaku Moyo e a apresentação dos Monolord que lançam em setembro o seu novo albúm do qual já se conhece o single Rust. A fechar a primeira noite teremos a aguardada estreia dos norte americanos Elder que também contam com novo albúm e os escoceses Cosmic Dead para que possamos viajar no céu aberto junto à foz do Rio Minho. Terminados os concertos haverá mais música para quem quiser continuar a noite no Ruivo’s Bar.

A tarde de sábado inicia-se com os portugueses Ana Paris no Palco da Piscina e segue com os mexicanos Vinnum Sabbathi que trazem o seu mais recente registo Gravity Works para nos apresentar. Teremos também os portugueses Löbo com a sua sonoridade hipnótica e introspectiva  e os Blaak Heat, uma banda que nos trará uma viagem por um psicadelismo de marcadas tonalidades do médio oriente. Caberá aos belgas Toxic Shock destilar energia com o seu punk hardcore e aos Death Alley o encerramento dos concertos no palco da piscina em grande alvoroço.

A noite de sábado inicia-se com o concerto dos Sasquatch neste momento em tour europeia do seu mais recente álbum, Maneuvers e o trio The Machine repetente em Moledo. A noite adivinha-se longa e pesada. Teremos os veteranos Acid King e Orange Goblin com as suas sonoridades stoner a fazer estalar o tímpano e uma das mais aguardadas estreias o trio alemão Colour Haze que adicionou este ano à sua extensa discografia o álbum In Her Garden. O encerramento do festival estará a cargo de Dead Witches com o seu doom hipnotizante.
Também na noite de sábado haverá mais música para aqueles que se queiram despedir em grande no Ruivo’s Bar. Não será difícil manter o ritmo, não será complicado acompanhar os riffs pesados ou as construções mais espaciais, basta querer. O SonicBlast Moledo está aí e esta é uma oportunidade a não perder!



Música do dia


Música do dia!


Enquanto esperamos pelo novo disco dos DAPUNKSPORTIF, a Música do dia é o seu novo single.   

Concerto do dia!!! The Claypool Lennon Delirium

The Claypool Lennon Delirium

Música do dia! Our Solar System - At the Edge of Time


Our Solar System - At the Edge of Time

The Machine; a Dinâmica da experimentação


Em contagem decrescente para o SonicBlast 2017, que irá acontecer em Moledo do Minho nos próximos dias 10,11 e 12 de Agosto, falámos um pouco com uma das bandas mais versáteis com quem contam este ano. O trio The Machine que já esteve entre nós, também no SonicBlast, em 2013. Conversámos informalmente com eles para vos dar a conhecer um pouco mais desta banda que iniciou o seu percurso em 2007 e que conta já com álbuns que são uma peça incontornável do que de novo acontece na música europeia de inspiração stoner. Falámos com David, o guitarrista e vocalista.

MDX - Para os nossos leitores que poderão não vos conhecer, quem faz o quê nos The Machine?
The Machine - Bem, temos o Hans, o nosso baixista, o Davy na bateria e eu como guitarrista e vocalista. Estamos juntos mais ou menos desde o outono de 2007 e tocamos rock, algumas das suas variadas formas.

MDX - Como escolheram o nome da banda?
The Machine - Foi durante uma sessão com um tabuleiro Oija que deu para o torto, numa noite escura e extremamente quente no meio do deserto de Flakkee, mais conhecido por pequeno Triângulo das Bermudas...Vendemos as nossas almas em troca de um sucesso infinito a tocar rock...e recomendaram-nos este nome.

MDX - Como desenvolvem as vossas músicas? Houve mudanças no processo criativo desde 2007 até agora?
The Machine – É quase sempre diferente de música para música. Algumas começam com demos que trazemos para a sala de ensaios, outras acontecem durante algum pequeno improviso que fazemos e surgem de forma quase instantânea. Por vezes usamos um riff de baixo do Hans ou uma batida especifica do Davy como ponto de partida e por aí fora. Algumas músicas levamos meses a finalizá-las, outras vezes levamos uma hora a chegar ao som final. Suponho que como a maioria das bandas trabalhamos como uma unidade. Um corpo só. Gradualmente passámos de uma situação em que apenas improvisávamos horas sem fim (há dez anos atrás era assim), e usávamos três acordes e uma quantidade semelhante de riffs por música com um solo de guitarra de dez minutos para depois compormos e estruturarmos e reestruturarmos ao mesmo tempo que também encurtávamos as músicas. Na verdade é muito mais fácil pensar um pouco as coisas e levar um pouco mais de tempo para que apareçam ideias novas e interessantes, ou seja agora levamos mais tempo a compor menos minutos de música.

MDX – O vosso ultimo álbum Offblast saiu em 2015. Já estão a trabalhar em músicas novas?
The Machine - Sim e não. Não, actualmente não estamos a escrever músicas novas. Sim, estamos a meio da gravação de um monte de músicas novas.

MDX – Quem são as vossas maiores influências na forma como fazem a vossa música?
The Machine – Há dez anos atrás quando começámos sentíamo-nos directamente influenciados por alguns artistas, hoje isso já não acontece. Por isso não existem actualmente nenhumas influências de vulto no que estamos a fazer apesar de todos nós trazemos influencias de outras músicas, como é normal. É correcto dizer que essas influências também vêm de outros estilos que extrapolam a nossa pequena cena. Para começar os nossos gostos pessoais são muito diversos. Eu passei agora algum tempo entre o Miles Davis dos anos 70, intercalando com algum punk hardcore e algum noise rock. Do ponto de vista criativo tenho-me interessado menos em tocar sem rumo definido para me focar mais em certos ambientes e composições. De um modo geral estamos mais focados. Mas a nossa maior influência criativa neste momento é talvez o facto de não nos querermos repetir e fazermos apenas aquilo nos apetece.

MDX – Se tivessem uma máquina do tempo, com quem e quando gostariam de tocar?
The Machine – ahahahahah! Bem, deixa-me pensar… Eu gostava de ir ao futuro...porque o passado é o passado. Como a nossa música tem estado sempre a evoluir e nós ainda somos uns deuses jovens, gostava de ver como estaremos daqui a 10 anos quando tivermos 40 e poucos, por isso basicamente gostaria de tocar comigo próprio!

 MDX – Como são os vossos concertos e o que podemos esperar do concerto no Sonic Blast?
The Machine – Infelizmente o nosso estilista demitiu-se há pouco tempo, foi trabalhar com uma banda mais na moda e com fatiotas a condizer por isso estamos um bocado à deriva na cena da imagem...mas como é verão e provavelmente vão estar pelo menos 30º graus é provável que estejamos de calções e t-shirt. Como sempre vamos dar o nosso melhor e divertir-mo-nos. É possível que no meio do set apareçam uma ou duas músicas novas. De certeza que não vamos tocar Moons of Neptune…. Nós tocámos no Sonic Blast em 2013 por isso também sabemos mais ou menos o que esperar do público. Digamos que isso é mais que suficiente para estejamos bastante ansiosos por voltar a Moledo.



Bandcamp  
Website Oficial



Entrevista publicada originalmente na Música em DX em 30/07/2017

Ao vivo em 01/Julho/17 Roadscum; Patrulha do Purgatório & Nashville Pussy! Rock’n roll nas veias!

No inicío de Julho estivemos no Stairway Club, em Cascais para presenciar um concerto que vai um pouco além do rock’n roll. Nessa noite em palco presenciámos três performances cada uma a fazer juz ao que representa. A abrir a noite estiveram os portugueses Roadscum que despertaram as mentes que de alguma forma pudessem ainda vir um pouco dormentes da noite anterior.
Os portugueses Roädscüm vinham definitivamente com toda a força possivél. De tal forma que ao cabo de poucos minutos ficaram sem uma das guitarras. Podia ser complicado gerir isto? Podia. Mas não foi! Eles não baixaram os braços, nem nada semelhante. Aliás toda a agressividade latente da sua sonoridade ficou ainda mais crua e o concerto decorreu como se de toda uma performance se tratasse acabando de forma quase apoteótica no palco!
Já a contar os minutos para Nashville Pussy tivemos Patrulha do Purgatório com um reportório emblemático e representativo do mais puro punk português a criar ondas de de nostalgia à mais bela maneira punk: Duros, agressivos e sem papas na lingua, sempre prontos a meter o dedo na ferida e a tornar impossivél que alguém se mantivesse quieto durante concerto tal o ritmo frenético das músicas!
Quando os Nashville Pussy entraram em palco o Stairway Club já se encontrava praticamente cheio para os receber como se fossem da casa, com uma tremenda ovação!

Na verdade, quem vem ver um concerto dos Nashville Pussy não vem apenas pela música...se vem apenas pela música recebe um grande bónus que é o verdadeirio espectáculo de rock’n roll que eles oferecem. Além de a maioria das letras girarem à volta de temas como alcoól, mulheres, sexo, dor de corno, droga, violência, etc e tal, eles são em palco tudo aquilo que apregoam nas suas músicas. Não é decerto nem por acaso que eles dizem “In Lust we trust”. É porque é mesmo isso que eles encarnam, como verdadeiros hedonistas que são. Eles não querem saber do parecer bem nem creio que se importem muito com o que os outros pensam, desde que dê para continuar a fazer concertos e noitadas será sempre maravilhoso. Amantes da vida, da loucura, da diversão sem regras nem prisões são em palco a verdadeira banda.
O rock’n roll da garrafa de whisky na mão e o cigarro ao canto da boca com Ruyter Suys a protagonizar fantásticos solos de guitarra que destilam aquela sensualidade que só ás mulheres com o verdadeiro rock’n roll nas veias é permitida (sim o verdadeiro...).
O rock’n roll que esquece o politicamente correcto, as maneiras e apenas mantém a boa educação! Assim é Blaine, provocador e mandão, sempre a pedir mais barulho, mais loucura na sua voz rouca e timbre sujo a beber cerveja do chapéu e a olhar para o público como se o mundo acabasse em menos de cinco minutos e eles em palco tivessem de fazer valer a pena tudo o resto.
O público que grita pela banda mas apenas grita: Pussy! Pussy! Como se estivessem a exorcizar dois mil anos de história que nos fazem não dizer palavras de forma natural!
Podem ver a reportagem completa com fotografia do Daniel Jesus no Música em DX 

Ao vivo em 20/Julho/17 A energia provocadora dos Meatbodies!

Os norte americanos Meatbodies vieram com toda a garra que lhes é característica, dispostos a não deixar pedra sobre pedra no Cais do Sodré.
Com uma casa quase cheia debitaram pouco mais de uma hora de música, para um publico sinceramente entusiasmado e carregado de energia pronto a receber a descarga vibrante da banda formada por Chad Ubovich há cerca de 5 anos em Los Angeles. 

Simpáticos afáveis e divertidos do primeiro ao último minuto, principalmente pela voz do guitarrista Patrick Nolan que confirma que Chad se encontra um “pouco” afónico.
O gozo que tem em dar concertos extravasa completamente para o público que sorri, abana o corpo e salta.
Him, do primeiro disco a abrir as hostilidades num nível bastante elevado que mantiveram quase durante 50 minutos, onde debitaram pelo meio de risos e pedidos de rum, ( haviam eleito o rum como a bebida da noite), algumas das músicas mais pujantes da sua discografia.
Como Chad estava sem voz, Patrick declarou unilateralmente avisando o público e os técnicos de som “Now i’m singing, deal with it!” numa verdadeira descontração provocadora.
O périplo pela discografia focou-se em temas musculados e com forte incidência nas sonoridades mais pesadas que apresentam, tornando-as ainda mais pesadas e distorcidas. 

Disciples e Montain, muito mais pujantes que nos discos, tornando impossível não saltarmos com toda esta gente que se movia num mosh pit juvenil e sorridente. Depois de Montain não mais houve sossego na sala, com hordas de miúdos e outros mais graúdos a darem largas a toda a energia que os Meatbodies transmitem. Passaram também por Haunted History, the Master e Gold.
E depois de 50 minutos em curva ascendente havia que acalmar os ânimos! Foi a Alice, o single homónimo do último disco que coube esse papel, numa continuidade de sorrisos e corpos ondulantes e felizes, vimos toda uma sala a relaxar de toda a adrenalina que ali havia sido libertada!

São concertos destes que nos mantém jovens e felizes.

Intensos, enérgicos, provocadores! Não os pudemos deixar ir embora sem encore, e o encore foi dado à escolha pelos próprios Meatbodies: Tremors ou Wahoo.

Queríamos ambas, mas Wahoo era a síntese deste concerto e foi ao som de um Wahoo ainda mais intenso que terminaram o concerto. Desordenados e felizes foi assim que nos deixaram! 


Entrevista a Blaak Heat - Psicadelismo Transcontinental

Estivemos à conversa com Thomas Bellier, vocalista e guitarrista dos Blaak Heat, anteriormente conhecidos por Blaak Heat Shujaa, que irão editar brevemente The Arabian Fuzz e que vão estar presentes no Sonicblast em Moledo do Minho onde actuarão no Palco Piscina durante a tarde do segundo dia do festival.

A discografia deste quarteto com elementos sediados em Los Angeles e Paris já conta com três álbuns; Blaak Heat Shujaa (2010), The Edge Of An Era (2013) e Shifting Mirrors (2016), assim como um EP, The Storm Generation (2012).
Os Blaak Heat utilizam da melhor forma as suas variadas vivências musicais, também fruto das suas proveniências diversas, para nos oferecerem uma experiência um pouco diferente do habitual nestas lides.
A sua sonoridade caracterizada por elementos do psicadelismo oriental conjugados com um certo heavy psy ocidental, e a introdução de instrumentos menos habituais como o Oud, faz com que deixem uma impressão duradoura com uma aura de misticismo bastante densa, mas ao mesmo tempo uma visão cosmopolita, um pouco de Paris, um pouco de Los Angeles, com se as sua mentes divagassem pelos desertos e planícies do médio oriente numa viagem de auto descoberta interior.
A curiosidade em relação à música que se faz em várias vertentes no Médio Oriente contribui para esta visão um pouco diferente. O caminho que trilham não é estanque mas sim uma viagem de descoberta. Em Setembro irão andar pela Europa e passarão novamente por Portugal, desta vez em Alcobaça e Almada, a 3 e 4 de Setembro.
Por agora podemos desfrutar da nova música, Marr El Kallam, e aguardar com expectativa o novo disco, enquanto contamos os dias para o SonicBlast.

Isabel Maria  – Thomas podes apresentar os Blaak Heat aos nossos leitores?
Thomas Bellier – Somos uma banda norte americana e francesa que mistura o psicadelismo do médio oriente com prog e surf rock. Do grupo de Los Angeles temos o Michael Amster que é o nosso baterista e eu que toco guitarra, Oud e canto. De Paris temos o Guillaume Theoden (baixista) e o Nicolas Heller (guitarrista). Também estamos muito entusiasmados por tocar com o percussionista Sacha-Viken Poulain em alguns concertos neste verão.
Isabel Maria  – Como é que se conheceram e começaram a tocar?
Thomas Bellier – Eu comecei a banda em 2008 com dois músicos franceses quando estava a estudar em Paris. Depois em 2011 mudei-me para os Estados Unidos e juntei-me ao Michael Amster. Tivemos alguns baixistas até que no ano passado o Guillaume Thedoen, que tem formação de jazz e um gosto irrepreensível se juntou a nós. O Nicolas Heller que é um bom amigo dos tempos de Paris também se juntou a nós como segundo guitarrista mais ou menos na mesma altura por que sentimos necessidade de ter mais um guitarrista em palco para podermos recriar a profundidade e as várias camadas daquilo que fazemos em estúdio.
Isabel Maria  – Como escolheram o nome Blaak Heat?
Thomas Bellier – O nosso primeiro baixista era fluente em Swahili e nós escolhemos o nome por causa de uma antiga lenda Swahili.
Isabel Maria – Como chegaram até à vossa editora?
Thomas Bellier – Em 2014 a Svart Records lançou Nomadic, um projecto de jazz psicadélico que eu tinha produzido em 2011 com o Sonny Simmons que é uma lenda do free jazz no Saxofone e no Corne Inglês. Gostei da curiosidade intelectual e da mente aberta da equipa e achei que fizeram muito bem o trabalho deles, por isso pareceu-me natural apresentar-lhes o Shifting Mirrors em 2016 e estamos muito felizes com eles.
Isabel Maria  – Como desenvolvem as vossas canções? Vocês tocam indefinidamente até vos soar bem ou algum de vós traz uma melodia ou letra e trabalham sobre isso?
Thomas Bellier – Normalmente eu trabalho algumas ideias no meu estúdio em casa. Com o contributo de todos, tento levar as demos até ao ponto a que elas irão soar nos álbuns, com a orquestração completa (bateria, teclas, percussão ou outros instrumentos). É um processo bastante longo mas que nos permite maturar as canções ao longo do tempo. Quando gravamos a versão final de uma canção em estúdio já estivemos a trabalhá-la durante um ano ou ano e meio.
Isabel Maria  – Quem são as maiores influências na vossa forma de fazer música?
Thomas Bellier – Nós temos backgrounds musicais muito diferentes, por isso sobre esse assunto só posso mesmo falar sobre mim. Eu oiço muito psicadélico underground dos anos 60 e 70 do Médio Oriente, como Selda, Ersen, Googoosh…Também oiço muita música mais recente de Oud como Anouar Brahem, Rahim Al-Haj, Rabih Abou-Khalil. Na generalidade sou um grande fã de surf rock, rock progressivo, afrobeat, ethnojazz, free jazz, e mesmo bandas sonoras antigas de Bollywood e reinterpreto estas sonoridades através da minha visão ocidental o que depois vai resultar na sonoridade dos Blaack Heat.
Isabel Maria  – Para além do teu gosto pela música do médio oriente, como surgiram estes elementos arábicos na vossa música?
Thomas Bellier – Quando começámos a banda nós já incorporávamos algumas escalas de inspiração oriental. Queríamos um som psicadélico e tripante, então tentámos emular Cítara e Oud na guitarra e no baixo. Passado algum tempo decidi aprofundar isso um pouco mais. Comecei a pesquisar artistas, a aprender teoria musical e músicas tradicionais, e também a tocar Oud e Baglama. Foi uma loucura a quantidade de música boa que acabei por descobrir e que me inspirou imenso, tanto na composição das nossas músicas como na forma de tocar qualquer um destes instrumentos. Actualmente em palco toco Oud com os Blaack Heat.
Isabel Maria  – Queremos aproveitar a oportunidade para vos felicitar pelo vosso nosso single. Conta-nos tudo. Este single é o aquecimento para o vosso novo álbum?
Thomas Bellier – Obrigado! Marr El Kallam é uma canção baseada numa ideia que tive há uns anos atrás quando ainda tocava nos Spindrift. Eu queria fazer uma música de toada punk surf mas inspirada na música psicadélica turca. Tivemos a honra de ter o etnomusicólogo jordano Fareed Al-Madain a gravar vozes nesta música. Fareed Al-Madain é um profundo conhecedor da música do médio oriente, e ele aceitou imediatamente a ideia de fazermos uma música numa fusão oriente – ocidente. The Arabian Fuzz sai a 18 de Agosto pela Svart Records e é um pouco fora da sonoridade habitual dos Blaack Heat, mas filosoficamente faz todo o sentido. O novo álbum vai soar um pouco diferente mas vai continuar a ser tripante e dançável ao mesmo tempo que continua a ser pesado. Já escrevemos a maioria das músicas e esperamos que esteja pronto na primeira metade de 2018. 
Isabel Maria  – Quem é que concebeu a capa do The Arabian Fuzz?
Thomas Bellier – A capa do The Arabian Fuzz é uma foto do nosso querido amigo Andrew Baxter que também já produziu três vídeos nossos. Na capa podemos ver o meu Oud egípcio, que foi construido por Maurice Shehata, bem como uma Supro Sahara e uma Fender Jaguar. É uma representação simples do som que almejamos produzir. Ainda que as capas dos nosso álbuns sejam bastante diferentes eu tive sempre a ter em mente a capa de The Devil’s Anvil- Hard Rock from the Middle East quando estávamos a fazer a sessão fotográfica.
Isabel Maria – Se tivesses uma máquina do tempo com quem gostarias de tocar e quando?
Thomas Bellier – Eu gostaria de de ter visto John Berberian a tocar Oud ao vivo nos anos 60, mais ou menos na altura dos seus álbuns de fusão e das colaborações com Joe Beck. Aconselho-vos procurar o disco Middle Eastern Rock. Também gostava de ter tocado com Miles Davis na época em que ele editou In a Silent Way e Bitches Brew.
Isabel Maria – Como são os vossos concertos e o que podemos esperar do concerto no SonicBlast?
Thomas Bellier – Nós tentamos tornar os nossos concertos uma experiência auditiva psicadélica completa e intensa. Criamos cuidadosamente o nosso set para incluir muitas camadas, sons e níveis diferentes de intensidade. É realmente uma viagem auditiva para te fazer pensar e sentir bem. Esperamos que o sintam assim também! Em Moledo vamos ser 4 elementos em palco, e eu vou tocar Oud em algumas músicas.

Bandcamp: blaakheat.bandcamp.com
Facebook: facebook.com/blaakheat
Website oficial: blaakheat.com
 Publicado originalmente em 01/08/2017 em Música em DX

Entrevista – Isabel Maria
Fotografia – Guilhem Seguin | Blaak Heat



Entrevista a The Well - Uma adrenalina nostálgica

Encontramo-nos neste momento a poucas horas do inicio do SonicBlast’17 em Moledo do Minho,  e a Música em DX esteve à conversa com os The Well, uma das bandas estreantes em solo português na sétima edição do festival.
Este trio, natural de Austin, Texas, composto por Ian na guitarra e na voz, Lisa no baixo e Jason na bateria, traz-nos sonoridades que podem ir do doom até a um certo psicadelismo, materializado em sensações mais densas. Tivemos oportunidade de lançar algumas questões para os conhecer um pouco melhor e o trio contou-nos como se formaram e no que andam neste momento a trabalhar. Com dois álbuns editados, Samsara e Pagan Science, ambos bastante sólidos na sua ideia musical, aguarda-se um concerto “ruidoso, sexy e estranho.”
Música em DX (MDX) – Podem apresentar os The Well aos nossos leitores e contar-nos como começaram a tocar juntos?
The Well – O Ian (guitarrista e vocalista) tinha sido expulso da banda dele e a Lisa encheu-o de whisky numa tentativa de o fazer sentir melhor, só que isso levou à grande ideia de voltar para a garagem dela e aí começar a tocar juntos todas as noites. A Lisa no baixo e o Ian a tocar guitarra e o pedal do bombo. E foi essa a génese de uma série de novas ideias.
Assim que houve material suficiente chamámos o Jason (baterista) que também tinha sido expulso da mesma banda que o Ian e foi assim que se formaram os The Well.
 
MDX – Como escolheram o nome da banda?
The Well – The Well apareceu como opção Wi-Fi numa ocasião em que estávamos completamente pedrados no meio do nada, fora de Austin. Nós achámos que aquilo era um sinal, uma oferenda.
MDX – Como é que conheceram a vossa editora?
The Well – O dono da editora era um fã que comprou o nosso primeiro single através do bandcamp. Quando gravámos o Samsara e começámos a procurar, acabámos por nos conhecer através de uma série de amigos em comum e após uma conversa telefónica percebemos que tínhamos encontrado a nossa editora.
MDX – Como estão a desenvolver as vossas músicas actualmente?
The Well – Não é de forma nenhuma uma ciência exacta, mas normalmente começa com um riff qualquer na nossa sala de ensaio. Qualquer coisa que é boa de tocar vezes sem conta de tal forma que nem te apercebes que o tempo passa. Como se fôssemos sugados para dentro dele. O Ian vai para casa e fica agarrado à melodia até de madrugada e vai-se vendo que tipo de conversas e ideias vão surgindo. Às vezes as letras surgem imediatamente outras vezes o riff pede uma mudança ou mais qualquer coisa para além do que já temos, às vezes ambos. Depois ele leva o que daí resultou para o ensaio seguinte e seguimos a partir daí.

MDX – Na vossa biografia afirmam-se como grandes fãs de filmes de terror. Isso influencia a vossa música?
Há algo visceral e um certo sentimento melancólico que retiramos daqueles filmes antigos de terror. Como as primeiras coisas de Mario Bava mas especialmente de George Romero que realmente nos dizem qualquer coisa. Nós gostamos que os nossos ritmos sejam semelhantes embora as letras nos levem a todos os lugares, e gostamos daquela incerteza planeada inerente a esses filmes antigos. No entanto não queremos definitivamente rotular-nos como uma banda de horror rock ou horror metal. Já existem muitas bandas a fazer isso.

MDX – O vosso álbum Pagan Science saiu em 2016. Já estão a trabalhar em temas novos ?
The Well – Claro! Estamos constantemente a trabalhar em coisas novas e à procura de fontes de inspiração. Por exemplo, ultimamente o Ian tem estado obcecado com um psicoterapeuta chamado Whilhelm Reich cujas ideias irão decerto surgir algures no próximo álbum. Esperamos lançar o nosso terceiro álbum em 2018.
MDX – Quem são as vossas maiores influências?
The Well – Em termos de outras bandas, tudo o que seja simples, pesado e levemente repetitivo. Coisas que mudem a nossa normal perceção da realidade. Claro que os Sabbath fazem parte desse grupo, mas também bandas como os Buthole Surfers, Joy Division e as primeiras coisas dos Gratefull Dead são determinantes em algumas opções que fazemos na forma como fazemos música, mesmo que não pareça.
MDX – Se tivessem uma máquina do tempo com quem gostariam de tocar?
The Well – Provavelmente gostaríamos de ir até ao final dos 80’s, inicio dos 90’s e tocar com os Ministry, Buthole Surfers ou os Jesus Lizard! Estas bandas são todas de Austin??
MDX – Sabemos que enquanto banda é a primeira vez que tocam em Portugal, mas já haviam visitado o país antes?
The Well – Não….nunca estivemos em Portugal, mas mal podemos esperar por aí chegar!
MDX – Conhecem alguma música portuguesa?
The Well – Não conhecemos muito de música portuguesa, mas sugeriram-nos que ouvíssemos Amália Rodrigues e os Ekos, no entanto estamos ansiosos para ver o que se passa em Portugal em termos de música!
MDX – O que podemos esperar do vosso concerto no SonicBlast?
The Well – Vai ser ruidoso, sexy e estranho.

Entrevista – Isabel Maria



Ao vivo em 19/Julho/17 TAU & SALLIM NO MUSICBOX, A BELA E OS XAMÃS!

Na noite de quarta feira passada o Musicbox proporcionou a oportunidade de rever em Lisboa o duo TAU, que passou pela capital a caminho do festival Woodrock e do  Milhões de Festa onde iriam actuar durante o fim de semana.
Géneros ou rótulos à parte, os TAU são na verdade uma experiência, que existindo essa possibilidade deverá ser vivida ao vivo e a cores e se possível descalço, pois a espiritualidade que emanam transcende em largos traços a audição dos discos e exalta a uma ligação com os elementos que se concretiza totalmente é na audição directa dos seus criadores.

O espectáculo começou com Sallim, pouco passava da hora estabelecida pela sala, no entanto muito poucos assistiram ao concerto de Sallim que com a sua voz limpída e enamorada nos levou de volta para aqueles sentimentos próprios do fim da infância. Viajámos ao som da sua guitarra até aqueles momentos em que nos começámos a tornar pessoas com opiniões e sentimentos complexos. É sobre esses  sentimentos complexos que a voz e a guitarra de Sallim se debruçam. O amor, a tristeza do amor não correspondido, ou a alegria de amar e ter amigos.
As letras simples no sentimento que descrevem, adquirem complexidade nas tonalidades da voz de Sallim suave, por vezes enamorada. Uma música para apenas sentir porque como a própria diz “ namorar é bom remédio para quem não quer pensar”.  Agreste ou um pouco angustiada, coisas naturais de quem ainda cresce, mas sem perder a compustura quando nos relata as mágoas, mágoas doces que nos transportam a esse momento simples e livre do primeiro amor com uma limpidez quase subversiva.

Com a casa já um pouco mais composta, os TAU entraram em palco por volta das 23,30,descalços e acendendo incensos como que a anunciar a verdade xamânica e hipnótica que a sua música nos traria na próxima hora.
As histórias que as suas músicas contam provêem dos desertos, esses sitios inóspitos que têm o poder de no meio do nada nos devolver às nossas formas mais primitivas e nos remeter para a nossa  mais ancestral espiritualidade, como em Mother, single do último albúm, lançado em Outubro de 2016, TAU TAU TAU, mais vibrante que no concerto a que havíamos assistido há alguns meses. Através da sua música levaram-nos ao deserto à descoberta de nós próprios com Espiral e Venadito, e exultaram-nos a escolher entre o Eros e o Logos, o coração ou a razão.

Dessa dualidade partem para Midnight Jaguar onde a guitarra de  Mulrooney estilhaça toda a acalmia que havia sido construida até ali e seguem até Huey Tonatzin do primeiro Ep, “Wirikuta” o deserto sagrado da Wixarika. Terá sido a peregrinação de Nunutzi por Wirikuta que o levou tempos depois a encetar a colaboração com  Mulrooney originando assim os TAU.
É verdade que não foi um concerto surpreendente, mas não por que a banda não o queira fazer, eles fazem-no de facto, mas o escasso público no local não consegue entrar no mesmo ritmo ou encetar a mesma ligação aos elementos que os TAU emanam.
Surpreendente parece ser a falta de atenção que o público em geral tem dado a esta banda que tanto tem para oferecer e que se dedica a isso quase como se de uma missão se tratasse.
Gerald Pasqualin e Shaun Mulrooney lançaram no dia seguinte ao deste concerto mais uma peça na sua enigmática discografia que vale a pena descobrir, quanto mais não seja para perceber em que ponto da viagem nos encontrámos com este duo que contém nele elementos musicais provenientes do norte e centro do continente americano com uma forte persistência nos cantos xamânicos, assim como algumas remeniscências do médio oriente.

The Underground Youth


White Hills, mitologia pós apocalíptica

Os White Hills estiveram em Portugal. Ego Sensation e Dave W estiveram em Lisboa. No Sabotage Club. No passado domingo ofereceram um concerto irrepreensível para uma casa a pouco mais de meio gás.

É verdade que isso não diminui em nada o seu trabalho. Tocaram para uma casa a meio gás como se estivessem num estádio cheio e com a garra característica da sua sonoridade encheram e preencheram todos os espaços livres do clube do Cais do Sodré e os presentes corresponderam à entrega da banda.
Fizeram estremecer paredes e corpos.
Actualmente em tour para promover o seu mais recente registo, Stop Mute Defeat editado há pouco mais de um mês, abriram as hostilidades pouco passava das 23 horas com uma faixa que neste momento ainda é difícil de encontrar, mas que caracteriza o momento pelo qual esta dupla criativa passa actualmente. VI X, lado B de Pulse, lançado ontem, 28 de Junho, é uma declaração inequívoca, quase uma denúncia de tudo o que de errado se passa actualmente, ou o seu somatório. “VI-X“, é o termo científico usado para se referir à sexta maior extinção na Terra, sendo esse o momento que actualmente vivemos. Ego Sensation trouxe consigo a névoa toda do mundo e fez questão de nos envolver nela ao longo de todo o concerto pisando com uma convicção fabulosa o pequeno pedal que a libertava e nos envolvia rapidamente a todos. We are what we Are, we are what you see, assim cantam em uníssono sobre o poderoso som que produzem,a abrir caminho às novas músicas e mostrando-se arautos de um psicadelismo que volta a pisar terrenos contestatários e controversos.

A postura combativa e desafiadora, o sorriso ora cerrado ora provocador de Ego Sensation e Dave não engana e acompanhados por um baterista ainda mais temíveis se tornam, como se de um só grito derrubassem meia cidade. Têm algo mais a dizer que aquilo que estamos na realidade a ouvir. Irão dizê-lo em Attack Mode, através dos ritmos compassados e dos quais é impossível distanciar a voz de comando de ambos. Regressam um pouco atrás e oferecem-nos Hand in Hand de H-p1 de 2011, carregando com intensidade no efeito quase ensurdecedor que nos remete para um psicadelismo industrial e negro. Pesado, de tal forma pesado como se quase ficássemos presos ao chão, num prelúdio que nos levaria novamente a 2017 com Entertainer, Overlord e Trick of the Mind num piscar de olho a um certo pós punk. Apesar de não terem a casa cheia que o seu trabalho merece, é um facto que souberam levar este contratempo com um glamour que poucos têm e presentearam o público com um pequeno encore que nos deixou um zumbido que se prolongará por toda a semana. Controversos, perturbadores da ordem, instigadores da revolução, a música dos White Hills ultrapassou-se a si própria, inserindo a banda num nicho tão à parte mas ao mesmo tempo tão mundano.
As noites de domingo tem o infeliz hábito de ser ingratas para as bandas. Neste caso a noite terá sido especialmente ingrata para quem faltou a este encontro.

Black Bombaim, B from Titans


Electric Moon, o som da poeira cósmica à qual todos pertencemos


O  novo álbum do trio alemão Electric Moon já viu a luz do dia há algum tempo. Na verdade não foi assim há tanto tempo como isso. Mas a velocidade a que a informação nos chega actualmente faz com que na realidade pareça que ao se falar de um disco que saiu há cerca de 4 meses, se esteja a falar fora de tempo do mesmo. No entanto isso é muito pouco importante no caso dos Electric Moon e especificamente no caso deste registo. Stardust Rituals é um disco fora do próprio tempo por isso este parênteses era desnecessário, mas achámos que deveríamos de corrigir o nosso próprio preconceito em relação a estas coisas dos timings…

Desta vez, como das outras vezes, podemos falar de um álbum complexo mas aqui podemos vê-lo também como algo mais completo que o agrupamento de algumas músicas que compõe um álbum.  Os Electric Moon contam-nos na sua página que este é o seu quinto álbum de estúdio no entanto basta entrar na pagina de bandcamp da banda para perceber que a matemática do trio alemão, tal como a sua música são um mundo à parte.
Sobre Stardust Rituals creio que os Electric Moon alcançaram um novo nível de consciência na sua música ( novamente ) e produziram uma magnifica reflexão sobre o caminho que talharam noutros registos.
The Loop com o seu inicio melancólico incorporando a voz de Komet Lulu que a  pouco e pouco se funde com os sons da guitarra e dos sintetizadores para no final quase apoteótico da primeira faixa já reconhecermos muito mais os Electric Moon e os seus devaneios cósmicos.
Em Stardust Ritual, faixa que dá nome ao álbum e que segundo Sula Bassana já existe desde 2014 (podem ouvir no bandcamp da banda umas das primeiras versão desta espantosa faixa de 11 minutos) onde nos trazem uma sonoridade mais redonda e suja, mais perto do que nos habituámos a receber dos Electric Moon, mas agora com a voz de nómada feiticeira de Lulu que nos remete à poeira cósmica da qual todos fazemos parte. Desse ponto no desconhecido cosmos levam-nos à boleia de Astral Hitch Hike onde a cítara inicial e os sintetizadores nos conduzem realmente à essência mais leve e requintada do trio alemão, com a suavidade da bateria a marcar um ritmo quase fora de tempo, existindo apenas o suficiente para nos manter deste lado da consciência, para que o trio possa temperar toda a música o suficiente para nos preparar para a última faixa (You Will) Live Forever Now. É realmente o som da eternidade que os Electric Moon nos oferecem, uma sonoridade que nos faz sentir senhores do universo mas ao mesmo tempo nos remete para a  nossa finitude.
Um disco a não perder e para os que não aprofundaram ainda, uma banda a não perder de vista.

Blaze & The Stars, doze músicas para a redenção dos poetas


 Os Blaze & The Stars apresentaram na passada quinta-feira à noite, no Popular Alvalade, o seu mais recente registo o EP Terribo la Terribline lançado em Fevereiro deste ano.
Acompanhados de Alek Rein, Flak e António Ramos construíram um concerto bem delineado oferecendo aos presentes uma agradável surpresa que se apoderou de nós e nos deu a entender que muito embora estes rapazes transportem consigo já a maturidade, através dessa mesma maturidade produzem algo fresco e inusitado.

Munidos de um som quente como o blues mas ao mesmo tempo ácido como algum psicadelismo, ou por vezes perto de uma certa toada pós punk trouxeram até ao Popular um espetáculo narrativo deveras singular.
O arranque com Blues on the Box, primeira faixa do EP que apresentam, para nos ensinar o caminho, e criar um ambiente para logo de seguida nos lançarem Pull my Daisy e assim a mostrar duas faixas carregadas de uma panóplia de sentimentos, misturando a intemporalidade de um quase spoken word onde imperativamente clamam “Play your guittar boy”, em oposição a “Pull my Daisy” que nos inicia na acidez deste blues salpicado gentilmente pelo saxofone de António Santos que graciosamente e eleva a sonoridade construída dos Blaze & the Stars, emprestando-lhe uma sensualidade muito própria e um corpo sonoro mais preenchido, quase palpável. Daí levam-nos até a uma desconstrução de Portland Town do músico folk Derrol Adams à qual deram uma roupagem mais estridente e ácida.

Bali’hai e El desierto de los Ninos com a aplaudida participação de Alek Rein resulta como se estivéssemos perante a banda sonora de uma cavalgada pelos desertos ilustrada pelos elementos em palco, Fernando Ramalho e João Zagalo,Flack e Alek Rein alinhados como que a desafiar quem deles possa duvidar. Por vezes o baixo de Gonçalo Zagalo impõe o ritmo, outras vezes é Rui Lucena que o faz. Nada é estanque e os papéis vão se trocando à medida do que pretendem apresentar. 
Não existem dúvidas. O ecletismo da banda transcende a barreira da linguagem, pois na verdade conseguem transportar-nos a alguns universos sonoros que nos são de certa forma familiares ou que nos remetem para alguns lugares das nossas vivências. Em inglês, francês, ou espanhol constroem nos seus concertos uma musicalidade que contém resquícios de manifesto, interpretando poemas de Langston Hughes, Henri Michaux, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Neal Cassady,  James Joyce, entre outros. Do princípio ao fim conduziram-nos pelos meandros poéticos que os cativam e cativaram-nos com as suas interpretações, prendendo a atenção dos que tiveram o privilégio de assistir.

Quase a finalizar “Blues For Sister Sally” do poema de Lenore Kandel, que nos traz essa vontade de querer algo mais que fazer músicas orelhudas, mas sim fazer músicas que mexem com os nossos vários sentidos e que permanecem a ecoar em nós até fazerem sentido… “god is a junkie and he has sold salvation for a week’s supply” gritou-nos Fernando Ramalho. O eco permanence. 

Podem ver a reportagem completa no Música em DX com fotografia da Ana Pereira!Podem ver a reportagem completa no Música em Dx com fotografia da Ana Pereira!