Songs To Nowhere#109#Trendkill Radio#6.09.2021

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Northern Death Cult, Pode alguém ser quem não é?

Na noite que antecipou o regresso ao Reverence Santarém teve lugar mais uma das sessões warm up no Sabotage Club. Desta vez o cartaz tinha o seu quê de misterioso e anunciava uma banda que iria fazer a sua estreia mundial. Sabíamos que os Northern Death Cult eram um projecto paralelo de alguns dos elementos dos Janitors, banda proveniente da Suécia que iria actuar no sábado ao final da tarde no Reverence.
Qual não foi a surpresa ao vermos o palco ser tomado por 5 músicos, todos eles vagamente familiares. Mas isto apenas para quem já tinha andado a percorrer os vários trilhos desenhados para os dois dias seguintes. Ainda assim a dúvida persistia, e a ser real a anunciada estreia, a ansiedade aumentou em segundos, pois não tínhamos nada com que nos guiar, apenas a referência aos Janitors, o que por si só era já uma referência bastante forte.



Aos primeiros acordes a suspeita ou a dúvida esfumaram-se… ou agudizaram. Ou estávamos perante a melhor banda de covers de sempre ou eram mesmo os Janitors pois de imediato se reconheceu a toada poderosa de “Here They Come” do Ep de 2014, Evil Doings of an Evil Kind.
O som enche a sala, cria uma atmosfera densa e sedutora. Os cinco músicos enchem completamente o palco mas a interação entre eles é já de tal forma intrínseca e natural que todo o concerto parece coreografado ao milímetro.
Trazem-nos Trojan Ghost e Blizzard e também a épica A-Bow, música etérea com cerca de dez minutos que nos captura para uma viagem extra corpórea.
Vão buscar-nos fora do nosso corpo com Greed e Message.



No meio de todo o turbilhão de sentimentos que a música nos desperta, duas coisas importantes a reter; o autocolante na guitarra de Henric Herlenius (Noise Against Fascism), que num mundo cada vez mais fechado sobre si próprio e com cada vez menos mensagem real e atuante causa impacto e nos leva a pesquisar um pouco mais sobre a banda e as suas fontes de inspiração.
É fascinante a entrega destes cinco músicos ao que fazem e como escolhem através da música que fazem e dos seus concertos tornar-se um veiculo inspirador e instigador da tolerância.
Nas palavras deles : “Este registo é uma declaração de intenções. É uma chamada de armas ao nosso lado. É um pequeno protesto. Seja contra a fé nas falhas religiosas de falsos profetas aclamados por si mesmos ou clero intocável de alto poder, egoísmo capitalista, idiossincrasia racista ou fascismo contundente escondido na ignorância.”



Um excelente concerto com uma ou mais componentes inesperadas. Uma banda que afinal era outra e a descoberta das suas intenções na sua passagem pelo mundo.

Mas a noite iria continuar ainda com os Zanibar Aliens e o seu rock pincelado de blues que de imediato nos remete às melhores e maiores referências da década de 70 nessa área da música.
A sala encheu-se um pouco mais, percebeu-se bastante bem que muitos dos presentes estavam ali para os ver e os Zanibar Aliens fizeram questão de dar o seu melhor em cada música criando uma atmosfera divertida e cheia de groove, que continuou depois pela mão do Nuno Rabino, incrível Dj residente do Sabotage Club.

 Texto - Isabel Maria

FUZZ CLUB – UM SONHO TORNADO REALIDADE (Entrevista)

A Fuzz Club é actualmente uma das muitas editoras que nasceram na era digital. Tem no seu catálogo bandas como os Radar Men From the Moon ou os portugueses 10000 Russos. Mas o que é que os distingue de tantas outras?
Tem vindo a crescer e a dar dinamismo a toda a cena do novo psicadélico através de colaborações e parcerias mas dá nas vistas sobretudo o seu árduo trabalho que aposta na qualidade e na estreita relação com as bandas com quem trabalha.
Aproveitámos a colaboração que este tem com o Reverence Santarém e que traz ao festival bandas como os Underground Youth, Noon, Is Bliss e os portugueses 10 000 Russos, para saber um pouco mais sobre uma editora que cada vez passa menos despercebida.


Falámos com Casper Dee, mentor e executor da ideia que nasceu há mais de dez anos e que começou como um site de partilha de boa música mas cresceu para se tornar uma editora que neste momento comemora o seu quinto aniversário.
Isabel Maria – Quem são as pessoas por de trás da FUZZ?
Casper Dee – Existem várias pessoas envolvidas na FUZZ CLUB, mas somos a maior parte do tempo 2 pessoas a gerir as operações. Eu ( Casper Dee) o fundador e pau para toda a obra e o Jack Palfrey que gere as Relações Públicas e o Marketing da editora. Ocasionalmente a nossa equipa integra estagiários, e por vezes amigos e mesmo a esposa.
Temos também uma rede de fãs apaixonados por música espalhados pelo mundo que nos ajuda de enumeras formas mostrando-nos novas bandas ou promovendo aquilo que editamos.
Não esquecendo as bandas e todos os que trabalham com as mesmas. É uma comunidade musical e através da FUZZ CLUB tentamos puxar por algumas das coisas boas que estão a acontecer dentro dela.


Isabel Maria  – Como nasceu a FUZZ CLUB?
Casper Dee – A Fuzz CLUB apareceu como um perfil de MySpace em 2006 com o intuito de criar um espaço onde podias encontrar boa música. Depois comecei uma marca de t-shirts de bandas com o mesmo nome porque na altura o vinil estava a morrer. Mas por volta de 2008/2009 as coisas começaram a mudar. Estava uma coisa nova a começar e toda a gente parecia excitada com isso. As vendas de vinil aumentaram contra todas as probabilidades. Havia coisas a acontecer em Austin, Brooklin e Londres e boas bandas a aparecer on-line. Uma dessas bandas foram os Undergound Youth. Tive sorte. Tinha algum dinheiro no bolso e pensei: “Que se lixe! Vamos ver até onde isto nos leva!” Então falei com o Craig da banda e a editora nasceu daí.
Isabel Maria  – Quando começaram qual era a vossa expectativa, o que procuravam fazer?
Casper Dee – Acho que não tínhamos qualquer expectativa. Na verdade só sabíamos que queríamos fazer qualquer coisa fixe e a Fuzz Club era a melhor ideia que tinha naquele momento. Honestamente não fazia ideia naquilo em que me estava a meter. Provavelmente ainda bem que não o sabia. Naquela altura a indústria musical estava bem pior que agora e por isso as expectativas em tornar aquela ideia num trabalho a tempo inteiro. Mas afinal chegámos até aqui.
Isabel Maria – Qual foi o maior desfio da FUZZ CLUB?
Casper Dee – Obviamente com tão poucas pessoas no controlo das operações é um desafio por si só. Quer dizer que tens de aprender a fazer tudo sozinho. Desde fazer os posters à contabilidade. É bastante compensador mas isso acabou. Agora só quero delegar trabalho e fumar uns cigarros.
O maior desafio na indústria musical actualmente é que existem tantas bandas e há tanta música disponível, que a musica ficou sem valor. Por esse motivo, para nós e para a maioria das editoras, o futuro está preso por um fio e depende de colecionadores à séria que ainda gastem dinheiro em música. Mas eu acho que a maior parte doa fãs de música sabem que é como um sistema de dar e receber. Se querem continuar a ver boas banda e a ouvir boa musica nós precisamos do apoio deles e eles estão a apoiar-nos e por isso está tudo bem por agora.


Isabel Maria – O vosso catálogo tem bandas como os 10000 Russos, Singapore Slings, Radar Men From The Moon. Também colaboram com The Reverberation Appreciation Society / Austin Psych Fest. Têm um plano traçado ou vão ao sabor da corrente?
Casper Dee – Sim. Primeiro a música tem de estar a transbordar de reverb e têm de ter Dead ou Black no nome. Também testamos todos os bateristas precisamos de saber se conseguem manter o mesmo ritmo durante 10 minutos.
Agora a sério, apenas agarro na música que gosto. Hoje estamos numa posição em que trabalhamos com bandas muito boas e isso parece atrair outras bandas de qualidade.
Obviamente que para uma editora trabalhar com uma banda tem de fazer sentido em termos de negócio, então tentamos trabalhar com bandas que trabalham no duro e que fazem muitas tours. Posso dizer que 99% das bandas têm outros trabalhos o que gera sempre dificuldades quando agendamos uma tour.
Colaboramos com TRAS / Austin Psych Fest em projectos como a série de compilações “The Reverb Conspiracy” e apoiamo-los como podemos pois o trabalho que eles fazem com o Levitation Festival é importantíssimo para manter a cena viva.


Isabel Maria – Esta entrevista acontece pois a FUZZ CLUB vai celebrar o seu 5º aniversário no FESTIVAL REVERENCE SANTARÉM. Como surgiu esta parceria?
Casper Dee – Sempre gostei de vir ao Reverence Festival. O primeiro ano então foi uma das melhores experiências que tive em festivais.
Creio que foi o Nick Allport que nos contactou e perguntou se queríamos fazer uma residência este ano no Reverence. Coincidia com o aniversário da editora e estamos muito contentes e agradecidos ao Reverence que possa ter acontecido. Portugal é um sitio muito bonito com pessoas super amigáveis. Estou desejoso que comece.
Isabel Maria – Este ano surgiram as FUZZ SESSIONS. Qual a ideia por trás das FUZZ SESSIONS?
Casper Dee – No mundo digital de hoje, é fácil perdermo-nos a editar e eu quis voltar ao básico. Gravar directo na fita sem overdubs. Põe um pouco de pressão na banda mas pode fazer a diferença e faz de certeza nas FUZZ SESSIONS. A qualidade de som é espantosa. Pensava que a diferença entre o digital e o analógico não se notaria, mas notasse bastante. Adoro estar no estúdio com as bandas a gravar. Com toda aquela aparelhagem analógica, o cheiro da fita! Então pelas sessões é bom partilhar esta experiência com os nossos amigos cromos por aí espalhados.


Isabel Maria – Quem são os vossos modelos na industria da música?
Casper Dee – Não tenho modelos a industria musical. Parece que todos os que têm potencial para o serem ou estão falidos ou estão mortos. Até a industria está meio morta.
Isabel Maria – Tem planos para o futuro?
Casper Dee – Teremos um novo sitio na net e estou muito excitado com isso. Com o novo sitio poderemos focar-nos mais no nosso blog e o site será um sitio onde as pessoas poderão encontrar tudo o que está a acontecer.
Não páro de me surpreender a quantidade de boas bandas que existem e continuam a surgir. Parece que as bandas estão a melhorar cada vez mais então há que continuar a documentá-las e promovê-las o mais possível, na esperança de que as pessoas continuem a comprar aquilo que editamos. Aí serei feliz!

Desert Mountain Tribe, de memória construir o futuro

A edição de 2017 do Reverence está quase aí. Este ano sujeita a uma mudança de local, de Valada para Santarém, traz consigo um manancial de bandas nacionais e internacionais com um espectro talvez um pouco mais abrangente dentro dos géneros musicais a que se haviam dedicado quase exclusivamente as três anteriores edições. 



Os alemães Desert Mountain Tribe estão entre as confirmações de sexta-feira dia 8 de Setembro.  Nascidos das cinzas dos promissores Young Men Dead, Philipp, Felix e Jonty construíram desde o seu início um percurso irrepreensível.
Aproveitámos o regresso do trio após terem estado em Lisboa em 2015 para trocar algumas impressões e conhecer um pouco melhor o percurso e as ideias da banda que lançou no passado mês de Abril o EP If You Don’t Know Can You Don’t Know Köln.

Isabel Maria – Podem apresentar aos nossos leitores os Desert Mountain Tribe e falar-nos um pouco do vosso percurso?
Desert Mountain Tribe – Nós neste momento estamos a aproveitar o verão inglês. O Philipp e o Felix são irmãos e conheceram o Jonty através da nossa anterior banda os Young Men Dead. O guitarrista de Young Men Dead, o Andrew, lembrou-se que tinha ouvido o Jonty cantar numa festa qualquer e perguntou se ele gostaria de se juntar à banda. Depois do fim dos Young Men Dead formámos os Desert Mountain Tribe e cá estamos nós. As ambições ou planos que tínhamos quando começámos mantém-se mais ou menos as mesmas; criar música que queiramos ouvir e que nós gostássemos de ver ao vivo.

Isabel Maria – Existe alguma história por detrás do nome da vossa banda?
Desert Mountain Tribe – Não….Nem por isso, quer dizer, pelo menos nenhuma que possamos partilhar aqui…



Isabel Maria – Como é que funciona o vosso processo de criação?
Desert Mountain Tribe – Nós nunca vamos para estúdio a dizer a dizer:”Ah estou inspiradíssimo por causa disto ou daquilo! Vamos escrever uma música sobre isto!

Isabel Maria – Durante este tempo quais foram os maiores desafios que os Desert Mountain Tribe enfrentaram?
Desert Mountain Tribe – Acho que o maior desafio é mesmo o tempo que andamos em tour. Por vezes,porque já andamos em tour há várias semanas ou há vários meses e por vezes acontecem uma série de concertos menos bons, porque foram mal organizados ou porque aparecem menos pessoas. Isso pode enervar-nos muito e deitar abaixo a nossa moral. Mas nós adoramos andar na estrada e dar concertos e os bons concertos superam completamente os menos bons.

Isabel Maria– Gostaríamos de vos felicitar pelo vosso novo EP If You Don’t Know Can You Don’t Know Köln que saiu em Abril deste ano. Porquê este nome?
Desert Mountain Tribe – Como dois terços da banda são naturais de Colónia nós temos uma ligação naturalmente muito forte com a cidade. A nossa maior influência musical de Colónia são os Can. Infelizmente a maioria dos miúdos de hoje nem sequer ouviu falar deles e a cena musical de Colónia está sobretudo associada à cena techno, que também é fantástica. O nome do disco partiu mais ou menos desta ideia. Basicamente é uma homenagem à nossa cidade natal.



Isabel Maria– Podemos esperar outro lançamento para breve?
Desert Mountain Tribe – Sim! Acabámos de gravar o nosso segundo disco. Ainda não temos data de lançamento mas estamos em crer que acontecerá no início do próximo ano.

Isabel Maria – Como encaram as mudanças que a internet trouxe ao mundo da música?
Desert Mountain Tribe – Creio que a internet trouxe uma certa força aos músicos mais independentes. Já não precisas de uma editora para lançar um disco, ou pagar um estúdio caríssimo pois consegues tecnicamente gravar um disco a partir do teu quarto. Podes usar os media e as redes sociais para promover o disco e muitas bandas tem sido bem-sucedidas a fazerem-no desta forma. No entanto, isto também faz com que se torne mais difícil sobressair pois a quantidade de bandas e lançamentos aumentou imenso nos últimos 15 anos. Obviamente isto significa que é muito mais difícil para uma banda subsistir ou viver apenas da música o que leva a que muitos músicos tenham outros trabalhos para poderem pagar as suas contas.

Isabel Maria – A música é a vossa principal ocupação ou tem outros trabalhos ou hobbies?
Desert Mountain Tribe – A música é a nossa principal ocupação mas todos nós temos outras coisas para poder subsistir e pagar as contas.



Isabel Maria – Que bandas ou músicos mais vos influenciaram?
Desert Mountain Tribe – No início fomos muito influenciados por muitas bandas como os Dead Skeletons, Brian Jonestown Massacre, Black Angels, BRMC ou Stone Roses…
Ainda os adoramos a todos mas os nossos gostos pessoais mudaram ou divergiram um pouco desde então.

Isabel Maria – Quais sãos os vossos “guilty pleasures” musicais?
Desert Mountain Tribe – Prince e Falco!

Isabel Maria– Qual foi o concerto mais memorável que deram até ao momento?
Desert Mountain Tribe – É muito difícil escolher um concerto em especial. O nosso ultimo concerto no Festival Zamba Loca, na Suíça, foi muito especial para nós. Na verdade todos os nossos concertos no leste da Europa tem sido fantásticos porque temos muita gente a ouvir a nossa musica e tem sido muito acolhedores e hospitaleiros para nós. E é claro que sempre que tocamos em Colónia é muito excitante ver todos os nossos amigos no meio do publico!!



Isabel Maria – Já conheciam ou tinham ouvido falar do Reverence antes de terem sido convidados para actuar?
Desert Mountain Tribe – Sim, já tínhamos ouvido falar bastante do Reverence!! Muitos amigos de outras bandas e também amigos de Londres que já cá estiveram. Todos nos disseram o quão fantástica e única foi a experiência, por isso estamos ansiosos por ver tudo!

Isabel Maria – Conhecem algumas das bandas que vão estar presentes… Quais nos aconselhariam a não perder?
Desert Mountain Tribe – Claro!! Conhecemos e somos amigos do grupo todo da Fuzz Club ( 10000 Russos, Dead Rabbits, Pretty Lightning, Throw Down Bones, The Underground Youth, etc). Por isso e porque sabemos o que valem aconselhamos a vê-los a todos. E também os nossos colegas de editora os Gang of Four!!! Nunca os vimos ao vivo mas estamos ansiosos!!

Isabel Maria – Quais as bandas no cartaz do Reverence que vos suscitam mais curiosidade?
Desert Mountain Tribe – Das bandas que ainda não vimos, provavelmente Mono e Gang of Four!

Isabel Maria – Qual foi a última canção que ouviram?
Desert Mountain Tribe – Na rádio acabou de passar Myléne Farmer ~ Libertine! Uma música fantástica!


Entrevista – Isabel Maria
Fotografia – Desert Mountain Tribe



Mono, A beleza das coisas simples (Entrevista)


 Os Mono formaram-se em 1999. Possuidores de uma música que contém fortes elementos de um post-rock bastante negro e pesado na maioria das vezes, carregado de ideias e emoções densas e marcantes, editaram este ano o seu nono álbum e voltaram a colaborar com Steve Albini com quem já haviam colaborado anteriormente.


Vão estar presentes no Reverence Santarém no dia 9 de Setembro para aquele se adivinha como um dos grandes concertos deste ano. 

Isabel Maria – Os Mono andam em tour e a gravar discos há cerca de 18 anos. Quando é que se aperceberam que eram ouvidos em todo o mundo?

Mono – Fizemos a nossa primeira tour nos Estados Unidos. Tocámos em sítios lendários como CBGB…. E continuámos a tocar sempre atrás do que havíamos idealizado. A nossa música espalhou-se boca a boca, mas só notámos que se havia chegado tão longe por volta de 2003.

Isabel Maria – A vossa maneira de fazer as coisas mudou depois de se terem apercebido disso?
Mono – Antes de 2003 estivemos sempre à procura do nosso lugar, do nosso espaço. Continuávamos a tocar para audiência de 5 a 30 pessoas, e porque éramos muito jovens por vezes ficávamos chateados, assustados e mesmo zangados, partimos muitas guitarras e amplificadores e mesmo baterias muitas vezes. O dia que mudou tudo estávamos a dar um concerto em Austin no Texas. Uma inacreditável quantidade de gente tinha aparecido para o nosso concerto, e no fim toda a gente ergueu as mãos e saudou-nos.
Essa foi a primeira vez que sentimos que tínhamos partilhado qualquer coisa de forma apropriada com o público nos Estados unidos. A música Halcyon (Beautifull Days) do nosso terceiro álbum Walking Cloud é exactamente sobre esse dia.
Depois de termos terminado o álbum, decidimos fazer do nosso terceiro álbum um presente para o mundo por nos ter dado este lugar e também a esperança na paz no mundo, até porque isto aconteceu pouco depois do 9/11. Quisemos continuar a contribuir e a partilhar como japoneses, por isso é que no design do álbum incluímos as formas de dobragem.



Isabel Maria – Porquê o nome Mono?

Mono – Porque em muitos países, culturas, idiomas e mesmo através da história significa UM.

Isabel Maria – Requiem From Hell traz de volta um colaborador de longa data, Steve Albini. Li no vosso site que vos pareceu a todos que voltar a esta colaboração seria voltar a um sitio onde foram felizes. Podes falar-nos um pouco sobre a vossa colaboração?

Mono – Neste álbum o que queríamos mesmo deixar para trás o nosso som como o de uma banda que toca junta há 17 anos. Comecei por idealizar qualquer coisa simples e orgânica, sem elementos desnecessários, e deixar a química entre nós os 4 fluir até se transformar no nosso nono álbum.
A partir dessas sensações voltou a vontade de gravar com Steve Albini outra vez. A última vez que  gravamos com ele foi em 2007 o Hymn To The Immortal Wind.
As sessões de gravação começaram em Março deste ano, na Electric Audio em Chicago que é o estúdio do Steve. Como de todas as outras vezes gravámos uma sessão ao vivo os quatro. As formas tradicionais de gravar podem ser a forma mais difícil de o fazer mas se tudo correr como planeado, nós poderemos conseguir uma conquista milagrosa, portanto, escolhemos fazê-lo sempre desta forma.


Optamos sempre por usar fitas analógica para gravar, porque assim podemos entregar cada grito das nossas almas, que é algo que  simplesmente não cabe em formatos digitais. O Steve Albini é um mago no que toca a gravações analógicas. Sem qualquer dúvida. Ele consegue captar tudo perfeitamente desde o nosso cabelo a esvoaçar, às nossas emoções, sentimentos e até a nossa comunicação sem palavras enquanto tocamos. Achamos mesmo que ele é o melhor a fazer isto.
E mesmo tendo passado tanto tempo eu relembrei-me que ele é a pessoa que melhor percebe a música outra vez.

Isabel Maria–  Ao longo de todo este tempo quais foram os maiores desafios que tiveram de ultrapassar?

Mono – Andámos sempre para trás e para a frente, a desconstruir e a reconstruir coisas que continuam a mudar e não deviam de mudar. Naquela altura  todos nós sentimos que queríamos aprofundar a nossa agressividade ao invés de nos tornarmos mais suaves à medida que amadurecíamos.
  
Isabel Maria– Como é que sentiram todas as mudanças que a internet trouxe ao mundo da música?

Mono – Nós fizemos tours de forma muito intensa muito antes de a internet ser amplamente utilizada. Todos os anos fazemos meio ano de tour e assim experimentamos e partilhamo-nos directamente com os nosso fãs, e talvez por isso não nos preocupa muito a forma como a internet afectou a cena musical no geral. Não interessa, a verdade é que não se consegue oferecer a mesma experiência a quem te ouve na internet. Não se conseguem ouvir coisas como o som do cabelo a cortar o ar ou mesmo as emoções do momento.

Isabel Maria– Que bandas mais vos influenciaram no inicio?

Mono – Falo por mim apenas, mas, My Bloody Valentine, Low, Loren Conners e Beethoven. Ainda gosto de todos incondicionalmente como antes. Todos eles são originais e é impossível cansarem-me.

Isabel Maria –  O que andam a ouvir por estes dias?

Mono – Oiço sobretudo bandas sonoras de filmes. Ben Frost, Max Richer e Nills Frahm também são fantásticos.
 
  
Isabel Maria – Conhecem algumas bandas portuguesas?

Mono – Conheço Sinistro porque andámos em tour com eles na Europa. São uma banda bastante pesada e bonita.

Isabel Maria– Estiveram em tour pela América do Norte esta Primavera. Como correu?

Mono – Andámos na estrada com algumas das nossas bandas favoritas como os Sleep e os Low, e também os Deafheaven. Todos bandas fantásticas e que nos inspiraram muito. Todos os concertos foram pacificos com públicos muito respeitadores. Foi uma belíssima jornada musical.

 Entrevista - Isabel Maria